sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A RAPARIGA DA CAIXA 11 - HERANÇA
Hoje voltei a lembrar-me da rapariga da caixa 11.  Há muito que não a vejo nem sei onde a procurar. Mas preocupa-me. Há dias julguei vela por entre a multidão, mas se era desapareceu de repente pela entrada do Metro.
Quando a solidão me pesa mais é sempre a ela que recorro. Não sei recorrer a outras pessoas, há muito que vivo só e me habituei a viver só. A minha amiga do terceiro andar partiu definitivamente. No seu testamento deixou-me os seus livros. Não pude ficar com todos. Escolhi alguns relacionados com história biografias e poesia, doei a quase totalidade à biblioteca da terra onde nasci. Já lá não vou há muitos anos. Já lá não deve haver pessoas que se lembrem de mim. Não sei o que vão fazer aos livros, deve até ser uma grande surpresa quando virem chegar os caixotes com quatro mil livros e milhares de revistas. Espero que haja por lá alguém que saiba reconhecer o valor do espólio e dar-lhe a importância que merece.
Nunca soube que ia ser beneficiado com o seu testamento. Depois daquele Natal em que fomos eu e a rapariga da caixa 11 pedir um saca rolhas emprestado, ficámos amigos. Encontrávamo-nos duas ou três vezes por semana, lia-lhe o jornal e algumas cartas que o seu marido enviara em viagem muitas vezes postais de cidades como Paris, Londres, Nova Iorque ou Chicago. Por vezes pedia para lhe ler cartas que o seu pai escrevera da India onde estivera a trabalhar. O seu pai era um poeta escrevia poemas muito interessantes onde a metáfora era tão importante que só quem o conhecesse bem saberia do que ele estava a falar. Segundo a minha amiga o pai amava a mãe desesperadamente. A sua mãe sabia, mas a força da liberdade era tão grande nela, que a levava a ter uma vida de grande anarquia social. Convivia com todos os grandes intelectuais da sua época, organizava em sua casa grandes tertúlias onde o álcool corria misturado com poesia e prosa. Projetavam filmes, fotografias e discutiam a noite toda. A minha amiga falava-me com frequência dos temas que a determinada altura faziam parte das discussões acesas que havia lá em casa. Dizia-me que passaram do construtivismo ao existencialismo do ao estruturalismo e que por vezes elogiavam as vantagens do neo-realismo. Para a minha amiga tinha sido fácil compreender o existencialismo e a recusa do Sartre em não aceitar o Nobel, mas nunca percebeu nada do que eles queriam com o estruturalismo, até ao aparecimento da internet em que por curiosidade e por se sentir ignorante perante os amigos da mãe foi procurar o que era isso do estruturalismo. “O estruturalismo é uma corrente de pensamento nas ciências humanas que se inspirou no modelo da linguística e que depreende a realidade social a partir de um conjunto considerado elementar (ou formal) de relações. (Viquipédia).
Decorou a definição e várias vezes me lembrou o que queria dizer estruturalismo. Por vezes dizia-me – se calhar nem eles sabiam bem do que estavam a falar.  A mãe da minha amiga também escrevia. Li-lhe muitos trechos de longos textos escritos em sebentas de capa dura. A senhora escrevia em segredo, prosa e poesia, e o que a minha modesta opinião pode avaliar era mesmo muito boa a escrever. Mas a minha amiga tinha uma opinião muito redutora sobre a mãe. Achava que ela era uma heroína com anarquista social, mas uma grande cobarde quando se tratava de afirmar a sua capacidade intelectual. Por isso os seus amigos nunca souberem que ela escrevia. Só o marido lia para a sua mãe o que ela escrevia e tinha uma opinião muito positiva, mas a mãe dizia que era o coração dele a falar não a razão. Muitas vezes ela pediu ao marido que se ela partisse na frente ele queimaria os seus escritos. Não queria que ninguém tivesse acesso aos seus devaneios intelectuais. Foi por essa razão que a determinada altura começamos a queimar os escritos da mãe depois de os lermos. Doía-me a alma ver queimar todos aqueles textos. Pequenos romances, crónicas de viagens, opiniões sobre muitos dos seus amigos e muitos poemas. Diálogos entre flores e aves e descrição de uma violenta tempestade na Serra da Estrela que ela descrevia com uma força e uma beleza encantadora, tornando a terrível tempestade num acontecimento benigno e desejável.
Não me foi possível destruir todos os seus poemas. Com um forte sentimento de traição guardei dois poemas simples e singelos, que de tão simples me pareceram tão belos invejando os seus amigos a quem os dedicou. Depois da morte da minha amiga mandei fazer umas molduras onde ficaram expostos para os puder desfrutar a toda a hora.
O advogado da minha amiga disse-me que a herança também incluía o andar e uma conta bancária razoável. Perguntou-me o que é eu queria fazer. Disse-lhe que por agora nada. Ele que tratasse de mudar os valores e a casa para o meu nome que se servisse dos honorários que entendesse e que eu depois falaria com ele sobre o destina a dar ao andar e ao dinheiro, quanto aos livros já estava tratado. Lembrou-me que o espólio era valioso sobretudo os quadros. Disse-lhe que por agora ficaria tudo com estava em vida da minha amiga, depois logo se veria. Que a minha intenção era doar a um museu nacional, mas que ainda não sabia qual.
- Impressionante - disse o doutor – Perguntei-lhe porque? Ele disse-me, que era como se fosse ela a dirigir-me do outro lado do mundo. Perguntou-me quantos anos fomos amigos, eu disse-lhe que quase um ano. - Só disse ele. Impressionante! Impressionante! E lá se foi dizendo, ligue-me quando quiser fazer alguma coisa e já agora vou pagando as despesas do condomínio e seguros, está bem!? Disse-lhe que sim!
E ali fiquei a olhar o tempo no espaço invisível daquela tarde fria de inverno.  

A imagem da minha amiga confundia-se com a rapariga da caixa 11, e pensava que o destino de uma seria alterado pelo conhecimento da outra. Mas tinha muitas duvidas em relação à forma como iria resolver o problema do dinheiro. Muito dinheiro de repente para quem não tem nada é muita vezes prejudicial e até trágico. Como se pode garantir a felicidade de alguém sem introduzir elementos perturbadores da sua situação.

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