A
RAPARIGA DA CAIXA 11 - HERANÇA
Hoje
voltei a lembrar-me da rapariga da caixa 11.
Há muito que não a vejo nem sei onde a procurar. Mas preocupa-me. Há
dias julguei vela por entre a multidão, mas se era desapareceu de repente pela
entrada do Metro.
Quando a
solidão me pesa mais é sempre a ela que recorro. Não sei recorrer a outras
pessoas, há muito que vivo só e me habituei a viver só. A minha amiga do
terceiro andar partiu definitivamente. No seu testamento deixou-me os seus
livros. Não pude ficar com todos. Escolhi alguns relacionados com história
biografias e poesia, doei a quase totalidade à biblioteca da terra onde nasci.
Já lá não vou há muitos anos. Já lá não deve haver pessoas que se lembrem de
mim. Não sei o que vão fazer aos livros, deve até ser uma grande surpresa
quando virem chegar os caixotes com quatro mil livros e milhares de revistas.
Espero que haja por lá alguém que saiba reconhecer o valor do espólio e dar-lhe
a importância que merece.
Nunca
soube que ia ser beneficiado com o seu testamento. Depois daquele Natal em que
fomos eu e a rapariga da caixa 11 pedir um saca rolhas emprestado, ficámos
amigos. Encontrávamo-nos duas ou três vezes por semana, lia-lhe o jornal e
algumas cartas que o seu marido enviara em viagem muitas vezes postais de
cidades como Paris, Londres, Nova Iorque ou Chicago. Por vezes pedia para lhe
ler cartas que o seu pai escrevera da India onde estivera a trabalhar. O seu
pai era um poeta escrevia poemas muito interessantes onde a metáfora era tão
importante que só quem o conhecesse bem saberia do que ele estava a falar.
Segundo a minha amiga o pai amava a mãe desesperadamente. A sua mãe sabia, mas
a força da liberdade era tão grande nela, que a levava a ter uma vida de grande
anarquia social. Convivia com todos os grandes intelectuais da sua época,
organizava em sua casa grandes tertúlias onde o álcool corria misturado com
poesia e prosa. Projetavam filmes, fotografias e discutiam a noite toda. A
minha amiga falava-me com frequência dos temas que a determinada altura faziam
parte das discussões acesas que havia lá em casa. Dizia-me que passaram do construtivismo
ao existencialismo do ao estruturalismo e que por vezes elogiavam as vantagens
do neo-realismo. Para a minha amiga tinha sido fácil compreender o existencialismo
e a recusa do Sartre em não aceitar o Nobel, mas nunca percebeu nada do que
eles queriam com o estruturalismo, até ao aparecimento da internet em que por
curiosidade e por se sentir ignorante perante os amigos da mãe foi procurar o que
era isso do estruturalismo. “O estruturalismo é uma corrente de pensamento nas ciências humanas que se inspirou no modelo da linguística e
que depreende a realidade social a partir de um conjunto considerado elementar
(ou formal) de relações. (Viquipédia).
Decorou a definição e várias vezes me lembrou o que queria dizer
estruturalismo. Por vezes dizia-me – se calhar nem eles sabiam bem do que
estavam a falar. A mãe da minha amiga
também escrevia. Li-lhe muitos trechos de longos textos escritos em sebentas de
capa dura. A senhora escrevia em segredo, prosa e poesia, e o que a minha
modesta opinião pode avaliar era mesmo muito boa a escrever. Mas a minha amiga
tinha uma opinião muito redutora sobre a mãe. Achava que ela era uma heroína
com anarquista social, mas uma grande cobarde quando se tratava de afirmar a
sua capacidade intelectual. Por isso os seus amigos nunca souberem que ela
escrevia. Só o marido lia para a sua mãe o que ela escrevia e tinha uma opinião
muito positiva, mas a mãe dizia que era o coração dele a falar não a razão.
Muitas vezes ela pediu ao marido que se ela partisse na frente ele queimaria os
seus escritos. Não queria que ninguém tivesse acesso aos seus devaneios
intelectuais. Foi por essa razão que a determinada altura começamos a queimar
os escritos da mãe depois de os lermos. Doía-me a alma ver queimar todos
aqueles textos. Pequenos romances, crónicas de viagens, opiniões sobre muitos
dos seus amigos e muitos poemas. Diálogos entre flores e aves e descrição de
uma violenta tempestade na Serra da Estrela que ela descrevia com uma força e
uma beleza encantadora, tornando a terrível tempestade num acontecimento
benigno e desejável.
Não me foi possível destruir todos os seus poemas. Com um forte
sentimento de traição guardei dois poemas simples e singelos, que de tão
simples me pareceram tão belos invejando os seus amigos a quem os dedicou.
Depois da morte da minha amiga mandei fazer umas molduras onde ficaram expostos
para os puder desfrutar a toda a hora.
O advogado da minha amiga disse-me que a herança também incluía
o andar e uma conta bancária razoável. Perguntou-me o que é eu queria fazer.
Disse-lhe que por agora nada. Ele que tratasse de mudar os valores e a casa
para o meu nome que se servisse dos honorários que entendesse e que eu depois
falaria com ele sobre o destina a dar ao andar e ao dinheiro, quanto aos livros
já estava tratado. Lembrou-me que o espólio era valioso sobretudo os quadros.
Disse-lhe que por agora ficaria tudo com estava em vida da minha amiga, depois
logo se veria. Que a minha intenção era doar a um museu nacional, mas que ainda
não sabia qual.
- Impressionante - disse o doutor – Perguntei-lhe porque? Ele
disse-me, que era como se fosse ela a dirigir-me do outro lado do mundo. Perguntou-me
quantos anos fomos amigos, eu disse-lhe que quase um ano. - Só disse ele.
Impressionante! Impressionante! E lá se foi dizendo, ligue-me quando quiser
fazer alguma coisa e já agora vou pagando as despesas do condomínio e seguros,
está bem!? Disse-lhe que sim!
E ali fiquei a olhar o tempo no espaço invisível daquela tarde
fria de inverno.
A imagem da minha amiga confundia-se com a rapariga da caixa 11,
e pensava que o destino de uma seria alterado pelo conhecimento da outra. Mas
tinha muitas duvidas em relação à forma como iria resolver o problema do
dinheiro. Muito dinheiro de repente para quem não tem nada é muita vezes
prejudicial e até trágico. Como se pode garantir a felicidade de alguém sem
introduzir elementos perturbadores da sua situação.
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