sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A RAPARIGA DA CAIXA 11 -ENCONTRO NA LIVRARIA
Há muito tempo que folheava livros naquela livraria. Aliás era seu hábito perder ou ganhar tempo a ler pedaços de texto em livros que lhe apetecia comprar. Com a crise o orçamento minguava e o espaço em casa já não dava para muitos mais livros, por isso tinha que ser seletivo e comprar só depois de muito escolher.
Lia assim muitos livros na diagonal, mas acabava sempre com mais um livro na caixa do estabelecimento.
O que mais lhe agradava era ser um grande espaço onde se é anónimo. Onde se pode vaguear entre livros e revistas.
Os empregados não deviam ter grandes salários. A rotação era grande, apesar de se considerar um cliente habitual, não reconhecia ninguém em particular.
Ali estava só consigo próprio e com muitos livros para ler na diagonal. Eram estes os pensamentos que o reconfortavam quando sentiu impelido pelas costas para cima do escaparate, deixou cair o livro que tinha nas mãos, “ Obra poética de Sofia” era grande e caro, mas como era para oferecer tinha que ser.
Quem o abordou de forma tão desajeitada, gritou ao mesmo tempo – Viva, há muito que não o via!
Virou-se e deu de caras com a jovem da caixa 11, igualzinha ao dia em que a conhecera, mas mais gorda, ou melhor estava prenha.
Assarapantado, olhou para a rapariga, fixou o olhar no seu ventre dilatado e franziu o sobrolho.
- O que foi nunca viu uma grávida?! Disse a rapariga.
Apanhado de surpresa, tentava encontrar palavras para o seu espanto, enquanto ela o abraçava com ternura e ria a bom rir. Esta contente e feliz, - pensava. Sem saber o que dizer, perguntou. – Falta muito? E continuou disparando. – É menino ou menina? – Quem é? Não chegou a acabar a pergunta.
- Alto lá, - disse ela perentória e continuou. – Primeiro não sei se é menino ou menina. Segundo deve sair dentro de três semanas, se for esperto, fica dentro no quentinho. Terceiro, não há pai só mãe, e essa sou eu, coisa que ninguém pode por em dúvida.
Disse tudo isto, pendurada no seu pescoço e rindo como lhe era habitual, ruidosamente.
 Ele olhava-a entre divertido e circunspecto. Ela parou de rir, mordia o lábio superior e encolhia os ombros em sinal de, desculpa lá este meu gesto. Assim ficaram por momentos em silêncio, até se aperceberem que à sua volta se fizera um estranho silêncio. Os clientes desinteressaram-se dos seus afazeres, até dos livros mais ou menos interessantes e olhavam com curiosidade aquele ruidoso encontro entre o velho e a desabrida jovem. O ruidoso casal apercebeu-se, da curiosidade dos clientes da livraria, a jovem olhou nos olhos e com um gesto que incluía todos gritou. – Vamos lá! O espetáculo acabou, toca a comprar. Vá…Vá…
Como por encanto a mobilidade voltou e com ela o ruído instalou-se de novo. Aquele barulho confuso que tanto lhe agradava, porque era incaracterístico, não pertencia a nada nem a ninguém. Ele pensava. – Conhece-se o ruído de um carro que trava, de uma serra que corta, de um martelo que mate, do moinho de café da D. Luísa do terceiro andar ou da D. Joaquina porteira, mas ali, não havia nada identificável, era tudo anónimo como o silêncio. O silêncio que só se reconhece, no meio do barulho. Num café há as conversas, as chávenas a ser manuseadas, o televisor que passa uma música indefinida, e o enorme ruído dos rostos, das roupas, dos sapatos e das pernas sobretudo das pernas feias ou bonitas todas elas apreciáveis, pensava. Voltou a si, afastou suavemente a sua ruidosa amiga, olhou-a nos olhos, uns olhos belíssimos, traquinas, insinuantes, mas transbordantes de alegria, de segurança, de quase felicidade.
- Está novamente a olhar para dentro de mim. O que é que o preocupa? Perguntou a jovem.
Não esperou pela resposta, e disse, - Está tudo bem! O bebé está bem! Eu estou bem! A avó está contente ou quase, queria que tivesse um pai, mas mesmo que eu quisesse e não quero, não podia dizer é este. É só meu e um pouco da minha mãe. Também pode ser um pouco seu. – Meu? Interrogou-se. Sim seu! Disse a rapariga da caixa 11. Eu não sou egoísta. Li em tempos um texto onde dizia que os filhos não são nossos, só temos o dever de os criar, de os ajudar a crescer. Neste mundo ele vai ser um pouco de todos e muito mais dos amigos da sua mãe. O que acha?
Levou algum tempo a responder. – É lindo muito lindo, não sei se ele vai gostar de ter uma mãe que partilha tudo. O que é seu, e o que não é, e agora a paternidade e a maternidade. Deu por si a rir, queria rir, mas a bom rir. Gostava da ideia. A miúda da caixa 11 sempre desconcertante e tão segura das suas ideias. Apeteceu-lhe abraça-la o que fez de forma intempestiva e desajeitada, o que levou a jovem a olhar incrédula para ele ao mesmo tempo que dizia.
 – Nunca me abraçou assim. Não me vai criticar?
Passou-lhe o braço pelas costas e arrastou-a para uma zona de leitura mais reservada onde se sentaram e tomando-lhe as mãos disse.
- Trazes no teu ventre um mundo novo. A tua liberdade, a tua felicidade, os teus pensamentos convergem para a criança que estás a gerar. Vais ter alegria, medo, vais-te sentir só, desamparada, mas ele vai-te dar força.
Com um ar traquina a rapariga da caixa 11 interrompeu-o para exclamar. Ele! Mas não sei se é ele.  
- Ele o bebé. Menina ou menino logo se saberá.
Ei! Calma aí. Não é preciso exagerar, como diz a minha avó, - tudo se cá cria. Para já há que esperar para ver.


Pegou no braço da jovem e arrastou-a para a rua, de braço dado caminharam durante algum tempo, por eles passou uma mãe conduzindo um carro de bebe. Pararam a olhar para a senhora tentando ver o rosto do bebe que ia no carro. Olharam um para o outro, riram-se com cumplicidade e disseram adeus, não sem antes prometerem encontrar-se depois de a criança nascer.

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